Sim, é possível ter um infarto sem obstrução das coronárias. Essa condição é conhecida pela sigla MINOCA e ocorre quando há evidências de lesão do músculo cardíaco compatível com infarto, mas a angiografia não identifica uma obstrução coronariana significativa. Portanto, encontrar artérias sem grandes bloqueios não significa que o coração esteja livre de um problema importante.

A American Heart Association (AHA) estima que esse quadro apareça em cerca de 5% a 6% dos pacientes com infarto submetidos à angiografia coronariana. Além disso, o MINOCA tende a aparecer em pacientes mais jovens e representa uma parcela proporcionalmente maior dos infartos em mulheres do que os quadros associados à doença coronariana obstrutiva.

No entanto, MINOCA não descreve uma única doença. O termo funciona como ponto de partida para uma investigação que precisa descobrir por que aquele coração sofreu uma lesão isquêmica.

O que significa ter um infarto sem uma artéria obstruída?

No infarto mais conhecido pelo público, uma placa de aterosclerose presente em uma artéria coronária se rompe, formando-se um coágulo sobre ela, que acaba por ocluir o vaso. Sem oxigênio suficiente, parte do músculo cardíaco sofre lesão, perdendo progressivamente sua contratilidade e causando disfunção cardíaca.

Porém, nem todos os infartos seguem exatamente esse mecanismo.

No infarto sem obstrução das coronárias, o paciente apresenta critérios compatíveis com infarto, mas o cateterismo não mostra uma estenose coronariana obstrutiva capaz de explicar imediatamente o quadro.

Em geral, considera-se não obstrutiva uma coronária sem estreitamento igual ou superior a 50%, em geral >70%. Entretanto, esse achado não encerra a investigação. Pelo contrário: ele levanta uma nova pergunta — o que provocou a lesão cardíaca?

Essa diferença é importante porque o tratamento depende diretamente da resposta.

MINOCA: o que essa sigla significa?

MINOCA vem do inglês Myocardial Infarction with Non-Obstructive Coronary Arteries, tradicionalmente usado para descrever o infarto do miocárdio na ausência de doença coronariana obstrutiva.

É importante entender que MINOCA é uma condição heterogênea, com diferentes mecanismos possíveis. A investigação pode revelar desde alterações na própria placa aterosclerótica até espasmos das coronárias, problemas na microcirculação, embolias ou dissecção espontânea da artéria coronária.

Além disso, a investigação precisa excluir doenças que podem simular um infarto.

Esse cuidado ganhou ainda mais importância com a evolução dos métodos de imagem e dos conceitos diagnósticos. A definição universal de infarto publicada em 2026 reforça que a presença de coronárias não obstrutivas representa um diagnóstico de trabalho, e não necessariamente a conclusão da investigação.

Quais causas explicam o infarto sem obstrução das coronárias?

Não existe uma única explicação. Por isso, dois pacientes que chegam ao hospital com quadros aparentemente semelhantes podem precisar de tratamentos completamente diferentes.

Ruptura ou erosão de uma pequena placa

Uma artéria não precisa apresentar uma obstrução grave previamente para participar de um infarto.

Uma placa aterosclerótica aparentemente pequena pode sofrer ruptura ou erosão. Isso desencadeia a formação de um trombo. Entretanto, esse coágulo pode se dissolver espontaneamente ou migrar antes do cateterismo, de forma que o mesmo não é identificado ao exame.

Assim, quando o médico examina a coronária, já não encontra uma grande obstrução, nem mesmo a imagem do trombo (coágulo).

Métodos de imagem intracoronária, como a tomografia de coerência óptica (OCT) e o ultrassom intracoronário (IVUS), podem ajudar a identificar alterações que a angiografia convencional não consegue mostrar com o mesmo nível de detalhe: rupturas, ulcerações, dissecções e até mesmo hematomas da parede do vaso.

Espasmo das artérias coronárias

Outra possibilidade é o vasoespasmo coronariano.

Nesse caso, a musculatura da parede da artéria se contrai intensamente e reduz temporariamente a passagem do sangue. Mesmo sem uma placa causando obstrução fixa, o coração pode ficar sem oxigênio, temporariamente. 

Quando o espasmo desaparece, após a cessação do estímulo que o causou, a coronária pode voltar a parecer normal no exame.

Disfunção da microcirculação

As grandes artérias coronárias são apenas uma parte da circulação cardíaca. Existe também uma extensa rede de pequenos vasos que leva sangue ao músculo do coração.

Esses vasos podem apresentar alterações de funcionamento mesmo quando as coronárias principais parecem normais.

Chamamos esse quadro de disfunção microvascular coronariana.

A ciência tem dado cada vez mais atenção à doença coronariana não obstrutiva. Um documento científico da AHA publicado em 2025 reforçou que condições associadas à microcirculação e ao vasoespasmo não são benignas e exigem diagnóstico e acompanhamento adequados. Além disso, métodos que avaliam a microcirculação coronariana, tanto invasivos quanto não invasivos, têm sido progressivamente desenvolvidos.

Dissecção espontânea da artéria coronária

A dissecção espontânea da artéria coronária, conhecida como SCAD (Spontaneous Coronary Artery Dissection), acontece quando ocorre uma separação entre as camadas da parede da coronária, permitindo a entrada de sangue e a formação de um hematoma entre as camadas e a parede do vaso.

Desta forma, essa alteração pode comprimir o verdadeiro canal pelo qual o sangue circula e reduzir a irrigação do coração.

Além disso, algumas dissecções são discretas ou atingem segmentos distais. Por isso, podem exigir análise cuidadosa das imagens para que o médico reconheça o problema.

Embolia ou trombose coronariana

Um coágulo também pode se formar em outro local e chegar até uma coronária.

Essa possibilidade merece atenção especialmente em pessoas com condições que favorecem trombose ou embolia, sejam relacionadas ao próprio paciente (trombofilias, estados inflamatórios, infecções, uso de drogas e anabolizantes, etc.), sejam relacionados a situações e contextos externos.

Dependendo da situação, o coágulo pode desaparecer antes da angiografia. Ainda assim, a interrupção temporária do fluxo pode ter causado lesão no músculo cardíaco.

Os sintomas do MINOCA são diferentes?

Nem sempre.

Um infarto sem obstrução das coronárias pode causar os mesmos sintomas encontrados em outros tipos de infarto. Eles podem ter duração prolongada, como em um infarto com obstrução coronariana, ou podem ter manifestações mais fugazes ou até mesmo consideradas “atípicas”.

Entre os principais sintomas estão:

  • Dor, pressão ou aperto no peito;
  • Falta de ar;
  • Sudorese fria;
  • Náuseas ou vômitos;
  • Tontura;
  • Fraqueza intensa;
  • Dor irradiada para braço, costas, pescoço ou mandíbula.

Portanto, o paciente não consegue determinar pelo sintoma se existe ou não uma coronária obstruída.

Dor torácica intensa ou persistente, especialmente quando acompanhada de falta de ar, suor frio ou mal-estar importante, exige atendimento de urgência.

Por que o diagnóstico pode ser mais complexo?

No infarto causado por uma obstrução evidente, o cateterismo frequentemente mostra a lesão responsável pelo evento.

No MINOCA, a angiografia pode não entregar essa resposta imediatamente.

Por isso, o cardiologista precisa juntar diferentes peças: sintomas, eletrocardiograma, troponina, angiografia, função cardíaca e outros métodos de imagem.

Além disso, troponina elevada não significa automaticamente infarto. Ela demonstra lesão do músculo cardíaco. O médico precisa descobrir a causa dessa lesão.

Ressonância cardíaca ajuda a esclarecer o diagnóstico

A ressonância magnética cardíaca ganhou papel importante nessa investigação.

O exame consegue avaliar características do tecido do coração e identificar padrões compatíveis com isquemia. Ao mesmo tempo, pode revelar diagnósticos alternativos.

Um estudo publicado em 2024 mostrou justamente o valor dessa abordagem: entre pacientes inicialmente classificados como possíveis casos de MINOCA, a ressonância reclassificou vários quadros como condições não isquêmicas.

Por isso, a ressonância pode ajudar o médico a responder uma questão fundamental: houve realmente um infarto ou outra doença produziu uma lesão semelhante? Desta forma, o exame pode levar a um tratamento mais direcionado, e mais intensivo quando indicado.

Outras doenças podem parecer um infarto?

Sim. Essa é uma das partes mais importantes da investigação.

Miocardite / Pericardite

A miocardite causa inflamação do músculo cardíaco. Ela pode provocar dor no peito, alterações no eletrocardiograma e elevação da troponina.

Ou seja, inicialmente, o quadro pode se parecer muito com um infarto, com manifestações semelhantes e alterações laboratoriais muito parecidas. Deve-se levar em conta, entretanto, situações associadas, como infecções recentes, alterações de exames inflamatórios, febre e outros sinais atípicos ao infarto.

Síndrome de Takotsubo

Também conhecida como síndrome do coração partido, a cardiomiopatia de Takotsubo provoca uma alteração transitória da função cardíaca.

Estresse físico ou emocional intenso pode preceder o episódio. Além disso, o paciente pode apresentar dor no peito, alterações eletrocardiográficas e aumento de marcadores cardíacos.

A ressonância cardíaca ajuda a diferenciar essas condições de um verdadeiro infarto isquêmico.

Mulheres apresentam MINOCA com maior frequência?

Esse é um ponto especialmente relevante.

Embora homens ainda representem grande parte dos pacientes com infarto em números absolutos, as mulheres aparecem proporcionalmente mais entre os casos de MINOCA do que entre os infartos associados à doença coronariana obstrutiva.

Dados reunidos pela AHA mostram que aproximadamente metade da população descrita nos estudos de MINOCA é composta por mulheres.

Isso reforça um princípio importante da cardiologia atual: ausência de uma grande obstrução coronariana não deve levar à desvalorização dos sintomas, sobretudo quando existem evidências objetivas de lesão cardíaca.

Como investigar o infarto sem obstrução das coronárias?

A investigação começa ainda no atendimento de urgência.

Entre os exames que podem fazer parte da avaliação estão:

  • Eletrocardiograma;
  • Dosagem seriada de troponina;
  • Ecocardiograma;
  • Cateterismo cardíaco;
  • Ressonância magnética cardíaca;
  • OCT ou IVUS (métodos avançados de imagem intra-coronariana) em situações selecionadas;
  • Avaliação funcional da circulação coronariana.

A AHA destaca angiografia, avaliação da função ventricular, ressonância, imagem intracoronária e testes funcionais coronarianos entre as ferramentas que podem esclarecer a origem do quadro.

Naturalmente, nem todo paciente precisa realizar todos esses exames. O cardiologista define a estratégia conforme o quadro clínico e os achados iniciais.

Como tratar um infarto sem obstrução das coronárias?

Aqui existe uma diferença fundamental em relação ao tratamento convencional: não há um único protocolo que sirva para todos os casos de MINOCA.

O médico precisa tratar o mecanismo responsável, buscando identificá-lo da forma mais completa possível, muitas vezes lançando mão de métodos complementares, como imagem cardiovascular não-invasiva e invasiva.

Por exemplo, pacientes com ruptura de placa podem precisar de estratégias de prevenção da aterotrombose. Já o vasoespasmo pode exigir medicamentos capazes de controlar a contração anormal das coronárias.

Se a causa for embolia coronariana, a estratégia pode envolver anticoagulação em situações específicas. Por outro lado, pacientes com disfunção microvascular precisam de uma abordagem direcionada a esse mecanismo.

Além disso, o cardiologista deve controlar fatores como hipertensão, colesterol elevado, diabetes, tabagismo, sedentarismo e obesidade quando presentes.

Portanto, descobrir a causa não é apenas uma questão de dar um nome ao problema. O diagnóstico direciona o tratamento.

MINOCA é menos perigoso que o infarto convencional?

Não devemos considerar o MINOCA um quadro benigno simplesmente porque não existe uma grande artéria obstruída.

O prognóstico varia conforme a causa. Além disso, esses pacientes podem apresentar novos eventos cardiovasculares e sintomas persistentes. A própria AHA reforça que a doença coronariana não obstrutiva está associada a maior risco cardiovascular do que a ausência de doença coronariana.

Por isso, receber a informação de que “o cateterismo não mostrou obstruções importantes” não significa que o paciente possa encerrar a investigação ou abandonar o acompanhamento.

Infarto sem obstrução também exige investigação completa

O infarto sem obstrução das coronárias mostra como a doença cardiovascular pode ser mais complexa do que simplesmente encontrar uma artéria “entupida”.

Espasmos, alterações da microcirculação, ruptura de pequenas placas, embolias e dissecções coronarianas estão entre os mecanismos que podem explicar o quadro. Além disso, doenças como miocardite e síndrome de Takotsubo precisam entrar no diagnóstico diferencial.

Por isso, a investigação detalhada faz toda a diferença. Ela permite identificar o mecanismo envolvido e escolher o tratamento mais adequado para cada paciente.

Se você apresenta sintomas cardiovasculares ou precisa investigar um quadro de dor torácica, o Centro de Cardiologia do Hospital Madre Teresa conta com equipe especializada e estrutura para diagnóstico e tratamento cardiovascular.

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FAQ – Infarto sem obstrução das coronárias

1. É possível ter infarto com o cateterismo normal?
Sim. O paciente pode apresentar lesão compatível com infarto mesmo sem uma obstrução coronariana significativa. Nesses casos, é necessário investigar a causa.

2. O que é MINOCA?
É o termo tradicionalmente usado para o infarto do miocárdio associado a coronárias sem obstruções significativas. Ele representa um diagnóstico de trabalho que exige investigação complementar.

3. MINOCA é mais comum em mulheres?
As mulheres representam uma proporção maior dos casos de MINOCA do que dos infartos com doença coronariana obstrutiva.

4. MINOCA pode ser causado por espasmo coronariano?
Sim. O espasmo intenso e transitório de uma coronária pode reduzir o fluxo de sangue e provocar isquemia do músculo cardíaco.

5. Miocardite é a mesma coisa que MINOCA?
Não. A miocardite pode imitar um infarto e precisa ser diferenciada do MINOCA. A ressonância cardíaca é especialmente útil nessa investigação.

6. Quem teve MINOCA precisa de acompanhamento cardiológico?
Sim. O quadro não deve ser considerado benigno. O acompanhamento permite identificar a causa, tratar fatores de risco e reduzir a possibilidade de novos eventos.

7. Todo paciente com MINOCA precisa colocar stent?
Não. Se não houver uma obstrução que justifique intervenção, o stent pode não ter indicação. O tratamento depende do mecanismo responsável pelo evento.

8. Dor no peito com coronárias normais deve ser ignorada?
Não. Dor torácica pode ocorrer por alterações microvasculares, vasoespasmo e outras condições mesmo sem obstruções importantes nas grandes coronárias.